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Os lados e o muro

  • jardimescuta
  • 27 de jun. de 2022
  • 1 min de leitura


“No outro lado, na ponta dos pés, por cima do muro,

Vejo um outro, estranho, que me olha.

Eu olho o fato de ser olhado pelos olhos familiares de um estranho.

Reconheço, nessa troca de olhares que se trocam, que se tocam, um horror.

Aquele susto epifânico! No qual o ar é tragado violentamente em um suspiro agudo e os olhos se arregalam, mas sem regalo.


O espanto me tira do corpo e me transporta para os olhos daquele que me olha ser olhado olhando.

Lá estou, não mais cá.

Do lado de lá, contudo, o lá vira cá e, o cá, lá; cala.

Onde eu me situo? Onde eu me sitio? Onde o eu me situa e me sitia?

Quem é esse eu? Quem é esse outro?


Seria eu do outro, outro do eu? Outro doeu?

Sou do lado de cá, do lado de lá e o muro.”


Stefano Carvalho


Em um processo analítico, fala-se grande parte do tempo dessa relação entre o “eu” e o “outro”. Muitas vezes, falar de si e, principalmente, revelar as próprias imperfeições e faltas é algo muito difícil e doloroso. Uma maneira, inconsciente, de abordar essas questões acaba sendo projetar no outro, isto é, atribuindo ao outro aquilo que sou ou faço, não conseguindo falar de mim sem me responsabilizar.


Um exemplo disso é dado brilhantemente por Freud: “quando Pedro me fala sobre Paulo, sei mais de Pedro do que de Paulo”.


 
 
 

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